
A noite surgiu densa, pesada, após um dia quente com o céu coberto de nuvens. O horizonte era cortado, a todo instante, pôr faiscas elétricas. A lua minguante reinava absoluta nos céus da Àfrika.
Na pequena aldeia de Kènà, nasceu um menino para o qual a “Mãe Sorte” não havia sorrido.
Pequeno, de pouco peso, com o corpo, franzino, coberto de chagas e carregando deformidades que o transformaram em castigo, e seus pais o abandonaram.
Largado à beira de uma trilha, passou o resto da noite de seu nascimento evitado até pelas feras.
Nem bem o dia havia iniciado a dispersar as sombras, Osògbó, o feiticeiro da mata, o encontrou.
- ”Se para servo não servir, pelo menos um mascote consegui.”
Cresceu. O que lhe faltava em beleza, sobrava em inteligência e maldade.
Osògbó lhe deu o nome de Apakarù, braço da morte.
E o aprendiz se tornou mestre.
Os anos passavam e seu nome cruzava fronteiras.
Reis, agricultores, guerreiros e caçadores o procuravam. Um inimigo morto aqui, um amor roubado ali, terras ganhas sem esforço, batalhas vencidas incompreensivelmente, e seu nome ficou temido e respeitado.
Osògbó, em sua ilha, se sentia um estranho. Junto a seus instrumentos de feitiçaria e poções, um aprendiz. Junto a seu aprendiz um covarde. E fugiu.
Apakarú se sentiu de novo abandonado e, alimentada por ódio, nova feitiçaria lançou. Nunca mais se ouviu falar de Osògbó.
O nome de Apakarú chegou a Óyò.
Sua fama chegou aos ouvidos de Osun.
- ”Quem se atreve a manchar com ódio as águas de meu rio?”
Numa tarde de sol, e rara beleza, na ilha de Apakarú, a beleza chegou. Na forma de uma mulher que só mesmo Osumarè poderia criar.
- ”É Apakarú, o feiticeiro cujo o nome é pronunciado entredentes e com a mão sobreposta à boca?”
- ”Sim, sou eu. Quem é você, cujos olhos não posso ver e que ofusca o sol com tanta beleza?”
- ”Aqui vim em busca de seus serviços. Quero que me livre de um inimigo.”
- ”Pois veio ao lugar certo, se em três dias não tiver noticias da morte desse tal, mudarei meu nome e deceparei minhas mãos. Quem é o defunto?”
- ”Eu, Apakarú. Quero que me mate.”
O rosto de Apakarú ficou ainda mais feio, retorcido em uma gargalhada. Seu corpo disforme, dobrado pelo riso, muito se parecia com o de um chimpanzé. Nem uma vara de porcos do mato grunhindo, conseguiria se igualar aos grunhidos que eram seu riso.
Mal conseguindo falar, Apakarú retrucou:
- ”Nem preciso de mandingas ou feitiços, estas bem diante de mim, e eu com uma faca na mão. Matar-te me é fácil, tanto que nem mesmo uma galinha cobrarei para aumentar minhas posses.”
Retirando os véus que a cobriam, Osun revelou-se em imensa luz. Era o amor puro, vestido de puro amor...
Apakarú perdeu-se na imensidão daquele amor, perdeu-se e encontrou-se, se viu diante de um espelho, onde se refletia a sujeira, feiura, maldade e desamor. Na lucidez de sua sandice, usou sua faca e matou Apakarú.
Da tarde radiante, no mesmo instante, mudou-se para a imensidão de uma densa, pesada e minguante noite.
Correu uma distância enorme e cansativa, até estar diante de seu Pai.
- ”Não lhe reconheço como filho. Usou a força que lhe dei, para só o mal fazer. Não lhe dei este direito. Não o quero nem aceito. Vá, desapareça da minha frente.”
- ”Eu vos imploro, Oh Omolu Meu Pai! Perdoa-me!”
Árido, como só o solo seco do deserto ao meio dia pode ser, o Majestoso Senhor da Vida e da Morte, ordenou:
- ”Vá!”
E Apakarú se sentiu jogado na noite...
O horizonte era cortado, a todo instante, pôr faíscas elétricas.
Apakarú se lembrou de Nãnã:
- ”Não é Ela a Mãe de todos os Eguns? Não é Ela que os embala a todo instante?”
- ”O que? Entre meus filhos queridos? Nunca! Saia de meu jardim, e não volte!”
Largado a beira do jardim, passou o resto da noite de sua morte evitado até pôr Esu...
No horizonte as faiscas lhe deram uma idéia:
- ”Igbalè, Oyà, Ela irá me ajudar!
- ”De você já ouvi falar. Não ouviu o que disse a Mãe? Vá, e não volte!”
Retornando a sua ilha, e só então, apesar dos anos que lá viveu, viu as flores, a água cantando e bailando nas pedras, as árvores repletas de frutos e os pássaros.
Sentou-se às margens do rio, e pela vez primeira, Apakarú chorou...
Quando suas lágrimas cairam sobre as águas do rio, como um rodamoinho, envolta em espuma e perfume, no centro, Ousa lhe surgiu.
- ”Não mais estará sozinho, não mais será feio, a maldade não mais reside em seu coração. Acompanha-me será meu servo.
E, pela vez primeira, Apakarú sorriu...
Conto por José Alberto Ayres